"O caminho central para Santiago deve ser valorizado"

Carlos Rodrigues criou a escultura de Santiago em Vila do Conde.

Carlos Rodrigues foi pela primeira vez a Santiago de Compostela em 1995. A partir daí nunca mais deixou de fazer o percurso, de bicicleta e a pé, até à catedral galega, criando uma “ligação muito forte” com a peregrinação ao templo do apóstolo. Tão próxima que este escultor de Vila do Conde avançou com um projeto de uma obra de arte de granito e mármore, um Santiago de três metros de altura, que conseguiu levar a cabo e que hoje ocupa o Largo de Vilarinho, o final da primeira etapa após saída do Porto pelo caminho central português, o mais antigo. Foi uma forma de dignificar o caminho e alertar para a necessidade de limpeza, sinalização e valorização do património. “Está esquecido, as atenções das autarquias estão viradas para o caminho da costa. No central, pelo interior dos concelhos, passam milhares de peregrinos e há muito a fazer.”

O Santiago de Carlos Rodrigues foi colocado no lugar central da freguesia de Macieira, a 25 km do Porto, em 2014, sendo de granito angolano – o autor nasceu no Huambo em 1963 – e de mármore rosa português. É uma homenagem à figura que atrai hoje milhões de peregrinos a Compostela. “Nunca foi um ato de fé mas nos caminhos fui encontrando outras coisas, incluindo uma fé interior. Quando fazia o caminho tinha aqueles momentos de reflexão, são quilómetros e quilómetros em que há tempo para pensar. Foi nessa força interior que o Santiago mexeu. Ficou um afeto grande. E uma coisa é certa: sempre que chego à catedral, arrepio-me todo, parece sempre a primeira vez. É muito forte.” De resto, ser peregrino é viver com “as pessoas que se encontra, todas no mesmo sentido, em que se partilha as mesmas experiências”. Como pessoa sempre muito ligada à natureza, “desde a infância em Angola até viver aqui em Vilarinho, desde 1974”, o percurso pelo interior minhoto é também um apelo. “Não conseguia viver numa cidade. Sou rural, gosto da terra, da natureza, das aldeias.”

A ideia da escultura começou a fervilhar quando fez o caminho a pé, depois das experiências de bicicleta. “Comecei a levar o meu bloco e passei a desenhar santiagos. Surgiu a ideia: por que não fazer uma escultura? E no lugar onde moro, em Vilarinho. Queria que tivesse aqui um marco, faz parte do caminho central e é onde termina uma etapa, a primeira após o Porto, merecia ter um ponto de valorização.” Para avançar com a ideia recorreu a uma plataforma de crowdfunding. “Foi para dar credibilidade ao projeto, para abranger mais pessoas e dar seriedade à ideia. Consegui juntar os 2500 euros pretendidos. Claro que não chegou para a pedra, tive de meter dinheiro. O trabalho era oferecido por mim.” A adesão foi boa, desde as pessoas que conhecia até peregrinos da Austrália. “Foram cerca de 80 pessoas, mesmo peregrinos que passavam aqui . Levava-os ao ateliê para conhecerem a escultura. Muitos ajudaram.” Com formas muito geométricas, “de inspiração num lego”, a ideia era conseguir juntar naquela figura as várias representações do Santiago: o peregrino, com o bastão na mão; o apóstolo, com o livrinho; e o mata-mouros, com uma espada em forma de cruz que aqui ficou no peito.

Agora, Carlos Rodrigues alerta que falta dignificar os percursos que de Vilarinho levam por Barcelos e Ponte de Lima até Compostela. “A começar pela limpeza de caminhos. Aqui em Vila do Conde há pontos negros. Já falei com câmaras, com juntas, mas não é fácil, ninguém liga. Alguns locais são mesmo autênticas lixeiras.” Depois não há sinalização com informação adequada e “o próprio património está esquecido”. Aponta o caso da ponte D. Zameiro, uma travessia com 800 anos, e que “não tem uma única informação” aos peregrinos, mesmo sendo dos monumentos mais antigos de Vila do Conde. O que “irrita mais é ver o caminho da costa todo polidinho, todo limpinho, com informação em todo lado. No Turismo de Vila do Conde sobre os quilómetros do caminho central não há nada, nem um papelzinho. A informação é toda sobre a costa, com este novo projeto que reuniu dez câmaras”. Em Junqueira, logo a seguir a Vilarinho, há a Estalagem das Pulgas, no passado a primeira paragem no percurso para Santiago. Camilo Castelo Branco chegou a pernoitar ali e escreveu mesmo sobre essa experiência no livro A Filha do Arcediago. “Está tudo a cair”, lamenta Carlos Rodrigues, que hoje tem a atividade como escultor, herdada do pai e da empresa familiar desde Angola.

“Fui crescendo no meio da pedra e fiquei ligado.” Autodidata, tem clientes regulares e faz exposições regulares, tendo finalizado uma no mês passado* numa galeria na Rua Miguel Bombarda, no Porto. “Nos anos 1990 conheci o mestre José Rodrigues e trabalhei para ele, com peças de pedra e aprendi muito. Foram quatro ou cinco anos muito importante”, diz. Foi nessa década que se consolidou a presença de Portugal na União Europeia. “Foi positivo, com algumas coisas negativas. Em geral, julgo que mudou completamente Portugal e estamos integrados numa comunidade, o que é muito bom. Não ficamos aqui encostadinhos no nosso cantinho.” É nesta perspetiva que vê os anos da crise como “uma fatura de excessos dos anos 1990, agora pagamos a fava. Mas se os políticos fossem honestos tudo estaria melhor”. Certo é que o país dá a volta – “a crise e a troika até pareciam o fim do mundo mas não eram” – e deve receber refugiados. “Temos de ser humanos.” E não desprezar o turismo: “É muito bom e deve ser uma das grandes apostas de Portugal. É disso que falamos com o caminho de Santiago. Em 2016 entraram 100 milhões de visitantes na Galiza. Muitos passaram por Portugal e devemos recebê-los bem”, diz Carlos Rodrigues, um pouco desgostoso por “os peregrinos só serem mesmo valorizados quando se começou a ver que era um negócio. É muito mais do que isso”.

Informação e fotografia retirados  da Internet – noticia “Diário de Notícias”

* 09 Agosto 2017